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Os voos de Maura - por Daniela Lima

POR Daniela Lima | 29.01.2013

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"Existo desmesuradamente, como janela aberta para o sol. Existo com agressividade."


O avi√£o Paulistinha CAP-4, de prefixo PP-RXK, fez uma aterrissagem for√ßada numa das principais ruas de uma cidadezinha¬†do¬†interior de Minas Gerais. A h√©lice enroscou nos fios¬†do¬†tel√©grafo e o avi√£o arrastou postes, at√© se chocar com uma casa. Depois da per√≠cia, constatou-se que o avi√£o n√£o apresentava nenhum defeito mec√Ęnico. "Sentia vontade de ver um avi√£o cair e seria muito mais emocionante se estivesse dentro dele", dizia¬†Maura¬†Lopes¬†Can√ßado aos colegas de reda√ß√£o¬†do¬†Jornal¬†do¬†Brasil.

Em 1958, após um período de internação no Hospital Gustavo Riedel, Maura publicou seu primeiro texto no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Era uma poesia que chegou às mãos de Assis Brasil através do repórter Sebastião de França. Sebastião ainda avisou: "Ela é louca". Ao que Assis respondeu: "Então somos dois".

O SDJB abriu espaço para a nova geração de escritores, jornalistas e críticos. Entre eles, Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Assis Brasil, Mário Faustino, José Louzeiro e Carlos Heitor Cony, que também eram plateia para as histórias fantásticas de Maura. "Queria este avião apaixonadamente - antes de tê-lo. Tão logo ganhei, deixou de interessar-me muito, como não me interessaram jamais as coisas possuídas".

Aos sete anos, ainda em São Gonçalo do Abaeté, onde nasceu, Maura já encantava seus colegas de escola com as suas histórias: "Sou filha de russos, tenho uma irmã chamada Natacha, e um dos meus tios nasceu na China, durante uma viagem dos meus avós". Mas tanto no colégio como no SDJB, a plateia diminuía à medida que as pessoas percebiam seus delírios.

Quando o seu conto "No quadrado de Joana" foi publicado na primeira p√°gina do SDJB, Maura agradeceu a Reynaldo Jardim de joelhos. O conto sobre uma esquizofr√™nica catat√īnica foi elogiado at√© por Clarice Lispector. E Maura se tornou escritora revela√ß√£o de 1958. Mas, sem entender o que isso significava, esfolou os joelhos em agradecimento.

Maura, uma mulher "loira e bonita", como gostava de se definir, oscilava entre uma timidez quase patológica e gestos exagerados e até agressivos. "Socialmente não tenho nenhum valor. Costumo causar sérios desastres aos meus amigos. Maria Alice Barroso disse: ?ser amigo da Maura é como viajar de avião'. Ela acha muito perigoso viajar de avião".

Num dos episódios de agressividade, Maura atirou uma máquina de escrever pela janela da redação do SDJB. Também chegou a jogar uma estante sobre um colega sem motivo aparente. Reconhecendo a própria fragilidade se internou voluntariamente, em 1959. "Acho-me na Seção Tilemont Fontes, Hospital Gustavo Riedel, Centro Psiquiátrico Nacional, Engenho de Dentro, Rio. Vim sozinha. O que me trouxe foi a necessidade de fugir para algum lugar, aparentemente fora do mundo".


Neste período de internação, por sugestão de Reynaldo Jardim, escreveu O hospício é Deus: diário I, publicado em 1965. O livro denunciava os abusos sofridos por Maura e outros pacientes no Gustavo Riedel e foi um marco na luta antimanicomial. "Durvalina tem um olho roxo. Está toda contundida. Não sei como alguém não toma providencias para que as doentes não sejam de tal maneira brutalizadas. Ainda mais que Durvalina se acha completamente inconsciente. Hoje fui ao quarto-forte vê-la. [...] o professor Lopes Rodrigues, diretor-geral do Serviço Nacional de Doenças Mentais, proferiu, aqui, um discurso, na porta (nas portas, porque são três) do quarto-forte, dizendo mais ou menos isto: ?Este quarto é apenas simbólico, pois na moderna psiquiatria não o usamos'. Por que então estes quartos nunca estão vagos?".

Apesar de ser tema de teses at√© na¬†Sorbonne, O hosp√≠cio √© Deus: di√°rio I est√° fora de cat√°logo h√° 20 anos. A segunda parte¬†do¬†di√°rio foi esquecida por Jos√© √Ālvaro, editor¬†do¬†livro, dentro de um t√°xi. Nunca foi encontrada.¬†Maura¬†tamb√©m publicou o livro O sofredor¬†do¬†ver, uma colet√Ęnea de contos, em 1968. Passou por in√ļmeras interna√ß√Ķes, numa das quais matou outra interna. Morreu em 1993, aos 63, em consequ√™ncia de uma doen√ßa pulmonar. N√£o escrevia mais.

Num dos trechos de O hosp√≠cio √© Deus,¬†Maura¬†afirma: "as coisas perdidas e inalcan√ßadas foram as √ļnicas que possu√≠".

* Daniela Lima é jornalista e escritora. Lançou, em 2012, o livro Anatomia, pela editora Multifoco. Atualmente, escreve a biografia de Maura Lopes Cançado, com a assistência de pesquisa de Natália Pinheiro.
Daniela Lima

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