Meu amigo Sérgio Porto - por Paulo Mendes Campos

POR Paulo Mendes Campos Por dentro do acervo | 24.01.2013

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No Brasil, depois dos sensacionais bilhetinhos, J√Ęnio Quadros cria a confus√£o com a ren√ļncia. A Copa do Mundo, que Man√© Garrincha trouxe do Chile, n√£o pode servir de ant√≠doto contra o esfarelamento do valor do dinheiro. Os militares fazem uma revolu√ß√£o e pouco depois o imposs√≠vel acontecia: Lacerda e Goulart tentavam uma "frente ampla".

Combates no Oriente M√©dio, agita√ß√Ķes estudantis em todo o mundo, viol√™ncias policiais, terrorismo, fome.

Foi nessa cultura que floriu o humorismo de Stanislaw Ponte Preta. Ele morreu na primeira hora de 30 de setembro de 1968, no mesmo ano em que eram assassinados Robert Kennedy e Martin Luther King. Ao sentir-se mal, disse para a empregada: "Estou apagando. Vira o rosto pra l√° que eu n√£o quero ver mulher chorando perto de mim."

Por que do estrume mortal daquela √©poca deu flor a gra√ßa de S√©rgio Porto? Possivelmente porque nos perigos hist√≥ricos mais brutais √© que a frivolidade humana mais se assanha, chocando-se sofrimento e besteira. A champanhota do caf√©-society fazia um contraste grotesco com os esqueletos de Biafra; a efervesc√™ncia er√≥tica tornava mais pat√©tica a carne humana incendiada no Vietn√£; a arregimenta√ß√£o de milh√Ķes de chineses tomava mais rid√≠culos os traseiros que se retorciam no prazer solit√°rio do twist; a minissaia era mais discutida que Marcuse; os desabamentos das encostas do Rio eram esquecidos com a primeira onda musical apalha√ßada.

O forte de Stanislaw Ponte Preta era justamente extrair humorismo dos fatos, das noticias da imprensa. Leitores enviavam-lhe recortes de jornais, colaborando mais ou menos com a metade das histórias contadas no Festival de besteiras que assola o país. Pouco antes de morrer ele lançava um jornalzinho humorístico, chamado A Carapuça: era ele mais uma vez à procura de piadas concretas.

O nome todo era S√©rgio Marcos Rangel Porto. Nasceu numa casa de Copacabana, na Rua Leopoldo Miguez, e l√° continuou morando depois que a casa foi substitu√≠da por um edif√≠cio. Menino de peladas na praia, pegava no gol e tinha o apelido de Bol√£o. Por chutar bola dentro da sala de aula, foi expulso do Col√©gio Mallet Soares, onde fez o prim√°rio. Mais taludo, sempre no gol, foi v√°rias vezes campe√£o da areia, ao lado de Heleno de Freitas, o craque, Sandro Moreira, Jo√£o Saldanha, tr√™s botafoguenses de temperamento. Mas S√©rgio sempre foi do Fluminense, onde jogou basquete e voleibol. Nos √ļltimos anos praticamente s√≥ comparecia ao Maracan√£ nos jogos do tricolor. S√≥ durante os 90 minutos do jogo do seu time (ou do selecionado brasileiro) ele perdia totalmente a gra√ßa, de rosto afogueado e unha do indicador entre os dentes.

O estudante de Arquitetura não passou do terceiro ano, depois do ginásio no Ottati e pré-vestibular no Juruena. Entrou para o Banco do Brasil e começou a beliscar no jornalismo, escrevendo crítica de cinema no Jornal do Povo, onde ficava de ouvido atento às piadas do Barão de Itararé.

Eu o conheci muito mais banc√°rio do que jornalista, quando ele escrevia cr√īnicas sobre jazz na revista Sombra, um mens√°rio gr√£-fino no qual L√ļcio Rangel fazia milagres para injetar intelig√™ncia.

Era no tempo da gravata, dos sapatos lustrosos, dos cabelos bem-aparados. Sérgio era impecável na sua aparência e só os íntimos o conheciam por dentro, e o por dentro dele era bem simples: uma ágil comicidade de raciocínio e uma pronta sensibilidade diante de todas as coisas que merecem o desgaste do afeto. Anos mais tarde, ele me diria, queixoso: "O diabo é que pensam que eu sou um cínico e ninguém acredita que eu sou um sentimentalão."

√Čramos um bando de pedestres, for√ßados a ficar na cidade sem condu√ß√£o depois do trabalho. Sent√°vamos pra√ßa num bar da Esplanada do Castelo at√© que o u√≠sque do mesmo de honesto passava a duvidoso e do duvidoso passava a intoler√°vel. Mud√°vamos de bar. Foi assim que percorremos o Pardellas, o Grande Ponto, o Vilari√Īo, o Serrador e o Juca's Bar. Com o primeiro desafogo do transporte, ainda pod√≠amos chegar, depois de uma passada pelo Recreio velho, aos bares mais c√īmodos de Copacabana, o Maxim's, o Michel, o Farolito. Ningu√©m pensava em apartamento pr√≥prio e as noites acabavam no Vogue, onde as mo√ßas e as jovens senhoras eram lind√≠ssimas, limp√≠ssimas e alienad√≠ssimas.

Esse roteiro foi cursado praticamente por toda uma gera√ß√£o conhecida: L√ļcio Rangel, Ari Barroso, Ant√īnio Maria, Araci de Almeida, S√≠lvio Caldas, Dolores Duran, Jos√© Lins do Rego, Rubem Braga, Ros√°rio Fusco, Sime√£o Leal, Jo√£o Cond√©, Vinicius de Moraes, Fl√°vio de Aquino, Santa Rosa, Augusto Rodrigues, Di Cavalcanti...

N√£o se falava de arte ou de literatura, mas de m√ļsica popular, principalmente do jazz negro de New Orleans. Jelly Roll Morton, Bechet e Armstrong exprimiam tudo o que desej√°vamos. As prodigiosas mem√≥rias de S√©rgio e L√ļcio nos forneciam todos os subs√≠dios hist√≥ricos de que precis√°ssemos, pois a turma cantava mais do que falava.

Uma vez Vinicius de Moraes chegou depois de longa temporada diplom√°tica nos Estados Unidos. Havia batido um longo papo com Louis Armstrong. No bar Michel, nas primeiras horas da noite, ainda portanto com pouco combust√≠vel na cuca, a ilustre orquestra n√£o demorou a formar-se. Instrumentos invis√≠veis foram sendo distribu√≠dos entre S√©rgio, Vinicius, Fernando Sabino, Jos√© Sanz, L√ļcio Rangel, S√≠lvio T√ļlio Cardoso. Eram o saxofone, o piano, o contrabaixo, o trompete, o trombone, a bateria.

Não me deram nada e tive que ficar de espectador. Mas valeu a pena. A orquestra tocou por mais de duas horas, alheada das mulheres bonitas que entravam e até esquecida de renovar os copos. A certa altura Sérgio pediu a Vinicius que trocassem de instrumentos, ele queria o piano, ficasse o poeta com o saxofone. Feito. Só que os dois, compenetrados e desligados, trocaram de lugar efetivamente, como se diante da cadeira de Vinicius estivessem de fato as teclas de um piano. Foi a jam session mais surrealista da história do jazz.

O humorista come√ßou a surgir no Com√≠cio, um seman√°rio bo√™mio e descontra√≠do, onde tamb√©m apareceram as primeiras cr√īnicas de Ant√īnio Maria. Mas foi no Di√°rio Carioca, tamb√©m bo√™mio e impag√°vel, que nasceu Stanislaw Ponte Preta, que tem ra√≠zes no Serafim Ponte Grande, de Oswald Andrade, e em sugest√Ķes de L√ļcio Rangel e do pintor Santa Rosa. Convidado por Haroldo Barbosa, precisando melhorar o or√ßamento, S√©rgio foi fazer gra√ßa no r√°dio, depois de passar um m√™s a aprender na cozinha dos programas humor√≠sticos da R√°dio Mayrink Veiga. Em 1955 Stanislaw Ponte Preta est√° na √öltima Hora, onde criou suas personagens e ficou famoso de um m√™s para o outro. Ali instituiu, contracenando com as elegantes mais bem vestidas de Jacinto de Thormes, as 10 mais bem despidas do ano. Eram as certinhas da fototeca Lalau. Teve a ideia quando ouviu de seu pai na rua este coment√°rio: "Olhe ali que mo√ßa mais certa!" E quem conhece Am√©rico Porto sabe que um certo tempero do humorismo do filho sempre existiu nas observa√ß√Ķes espont√Ęneas do pai.

Foi numa prima de sua m√£e que ele buscou os primeiros tra√ßos de sua mais c√©lebre personagem, a macr√≥bia e sapiente Tia Zulmira, sempre a dizer coisas engra√ßadas. S√©rgio uma vez morreu de rir ao ouvir daquela sua parenta este coment√°rio: "Por uma perereca o mangue n√£o p√Ķe luto."

Tia Zulmira √© uma dessas criaturas que acontecem: saiu de Vila Isabel, onde nasceu, por n√£o achar nada bonito o monumento a Noel Rosa. Passou anos e anos em Paris, dividindo quase o seu tempo entre o Follies Berg√®re, onde era vedete, e a Sorbonne, onde era um cr√Ęnio. Casou-se v√°rias vezes, deslumbrou a Europa, foi correspondente do Times na Jamaica, colaborou com Madame Curie, brigou nos √°ureos tempos com Darwin, por causa de um macaco, ensinou dan√ßa a Nijinski, relatividade a Einstein, psican√°lise a Freud, automobilismo ao argentino Fangio, tourear a Domingu√≠n, cinema a Chaplin, e deu algumas dicas para o doutor Salk. Vivia, j√° velha mas sempre sapiente, num casar√£o da Boca do Mato, fazendo past√©is que um sobrinho vendia na esta√ß√£o do M√©ier. N√£o tinha papas na l√≠ngua e, entre muitas outras coisas, detestava mulher gorda em garupa de lambreta.

Primo Altamirando também ficou logo famoso em todo o Brasil. O nefando nasceu num ano tão diferente que nele o São Cristóvão foi campeão carioca (1926). Ainda de fraldas praticou todas as maldades que as crianças costumam fazer dos 10 aos 15 anos, como, por exemplo, botar o canarinho belga no liquidificador: Foi expulso da escola primária ao ser apanhado falando muito mal de São Francisco de Assis. Pioneiro de plantação de maconha do Rio. Vivendo do dinheiro de algumas velhotas, inimigo de todos os códigos, considerava-se um homem realizado. E, ao saber de pesquisas no campo da fecundação em laboratório, dizia: "Por mais eficaz que seja o método novo de fazer criança, a turma jamais abandonará o antigo."

Raras vezes Stanislaw deixava a s√°tira dos fatos e partia para uma caricatura coletiva:

"O negócio aconteceu num café. Tinha uma porção de sujeitos sentados nesse café. Havia brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, o diabo.

De repente, um alemão, forte pra cachorro, levantou e gritou que não havia homem pra ele ali dentro. Houve a surpresa inicial, li motivada pela provocação, e logo um turco, tão forte como o alemão, levantou-se de lá e perguntou: ?Isso é comigo?' ?Pode ser com você também', respondeu o alemão.

Aí então o turco avançou para o alemão e levou uma traulitada tão segura que caiu no chão. Vai daí o alemão repetiu que não havia homem ali dentro pra ele. Queimou-se então o português, que era maior que o turco. Queimou-se e não conversou. Partiu pra cima do alemão e não teve outra sorte. Levou um murro debaixo dos queixos e caiu sem sentidos.

O alemão limpou as mãos, deu mais um gole no chope e fez ver aos presentes que o que dizia era certo. Não havia homem para ele ali naquele café. Levantou-se também um inglês troncudo pra cachorro e também entrou bem. E depois do inglês foi a vez de um francês, depois um norueguês etc. etc. Até que, lá do canto do café, levantou-se um brasileiro magrinho, cheio de picardia para perguntar, como os outros: ?Isso é comigo?'

O alemão voltou a dizer que podia ser. Então o brasileiro deu um sorriso cheio de bossa e veio gingando assim pro lado do alemão. Parou perto, balançou o corpo e... PIMBA! O alemão deu-lhe uma pancada na cabeça com tanta força que quase desmonta o brasileiro.

Como, minha senhora? Qual é o final da história? Pois a história termina aí, madama. Termina aí que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros.".

De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho.

Era um monstro para trabalhar esse homem de tr√Ęnsito livre entre todas as coisas gratuitas da vida e que poucos meses antes de morrer gemia de pesar ao ter de deixar um quarto de hotel: gostaria de ficar descansando pelo menos um m√™s.

Lembro-me dele quando chegamos a Buenos Aires, em 1959, no dia do jogo dram√°tico entre o Brasil e o Uruguai (aquele tr√™s a um, que teve briga durante e depois). Vi S√©rgio em v√°rias atitudes diferentes naquele mesmo dia: fazendo uma piada para o m√©dico argentino que lhe pediu o atestado de vacina (ele apertou a m√£o do doutor, muito serio. dizendo: "Vacunac√≠√≥n para usted tambi√©n."); durante o jogo ele deu um empurr√£o nos peitos dum argentino que chamava os brasileiros de covardes (por causa do jogador Chinesinho, que saiu correndo na hora do pau); chorou quando Paulo Valentim fez o terceiro gol; riu-se √†s gargalhadas quando Garrincha passou indiferente entre os uruguaios furiosos e entrou no √īnibus com um sandu√≠che enorme na boca e outro na m√£o; conversou longamente comigo sobre suas afli√ß√Ķes sentimentais; e ceou com grande entusiasmo.

* Paulo Mendes Campos foi um escritor e jornalista brasileiro. O Instituto Moreira Salles detém parte do acervo do autor.
Paulo Mendes Campos

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